segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Presentes

Leonildo é um rapaz comum. Bonito. Designer. 30 anos. Adora dar presentes. Teve várias namoradas. Ultimamente anda só. Mas há algum tempo ele conheceu uma moça chamada Matilda e isso mudou sua vida. Ele começou a dar presentes para ela. Leonildo tivera várias namoradas e hoje em dia mesmo poderia ter mais outras. No entanto, Leonildo sentiu-se intimamente ligado a Matilda. Ele não a desejava sexualmente. Ele apenas precisava dar presentes a ela. Era apenas uma necessidade. Em troca ele não queria nada além da sua iluminada companhia nas poucas horas que dividiam em seus breves encontros. Leonildo então comprou o primeiro presente para Matilda: uma boneca de pano. Veja só! Uma boneca de pano. Pensarão: que coisa mais besta! Presente de criança. Coisa infantil. Mas a boneca era linda, pensou Leonildo. E era a cara da Matilda. Não hesitou, entrou na loja e comprou a boneca. Mas o presente ficou no armário. Anos. Dois anos. Não havia chegado o momento de entregá-lo. Talvez não estivessem preparados para o encontro e o presente. Mas Leonildo, dois anos depois, decidiu que era o dia de entregá-lo. Encontraram-se em um café. Ela chocolate. Ele frapuccino. (É aquele café, com chocolate, gelo, chantilly...) E ele deu a boneca pra ela. Ela adorou. Conversaram. Se conheceram. Se abraçaram. Se despediram. O sabor ficou arco-íris. Sorriso-vergonha. Pupilas brilhando. E a promessa de um reencontro deixou-o tímido e sincero.
Leonildo então pensou em qual seria o próximo presente. Uma flor. Eles haviam falado disso certa vez. Seria uma flor. Foi comprar. Mas que flor? E quantas? Teria que ser uma apenas. Singela como a singeleza de Matilda. E que fosse uma rosa vermelha. Não. Não. Rosa vermelha é coisa de paixão. Ela vai pensar que eu quero namorar com ela. Então que seja um girassol! É tem tudo a ver. Ela é um girassol! Riu. Ela era mesmo um girassol. Mas pra carregar é tão difícil... Uma margarida. É um girassolzinho... Mas aí fica meio... Decidiu pelo girassol. Mas não comprou. Tinha que ser no dia. Passou uma semana. Leonildo comprou o girassol. E carregou pela rua. As pessoas ficavam olhando pra ele. Encarando mesmo. Ele nem aí se estavam achando ridículo. Ninguém ali tinha alguém pra dar um girassol. Amarelo. É, era bem amarelo o girassol. E verde no meio. Entregou o girassol. Ela sorriu sorriso-vergonha. Ele sorriu sorriso-criança. Conversaram. Se reconheceram. Se abraçaram delicadamente. Se despediram carinhosamente.
Matilda tinha um namorado. Ela era fotógrafo. É fotógrafo. Parece ser um cara gente fina. Bacana. Gosta dela. Ela gosta dele. Claro. Afinal são namorados. Matilda deixou o girassol na sala. Na garrafa d´água. O namorado queria água gelada. Mas gelada não tem. Tô usando a garrafa. Pra quê? Pra flor. Ah, pra flor. E de quem é a flor? De um amigo. Porra, mas que amigo? O Leonildo. Quem é esse cara? Você não conhece. Nem quero. Te apresento. Ele é bacana. Quer te comer. Quer nada. Quer sim. Se liga. É só um amigo. E a água? Daqui uns dias eu troco.
Leonildo foi embora já pensando em qual seria o próximo presente. Pensou em uma roupa. Uma blusa no estilo dela. Mas roupa é coisa de namorado. E também, não tem nada a ver. Roupa? Só se fosse um brinco... Mas e se ela fosse alérgica? Ele teve uma namorada alérgica. Nada de bijuterias. Às vezes nem prata. E aí? Uma foto. É isso! Uma foto dela. Claro que ele teria que tirar a foto. Mas quando? Não ia encontrá-la antes do próximo encontro. E não podia encontrá-la sem um presente. Desistiu. Mas colocou na lista.
No terceiro encontro Matilda estava diferente. Conversaram. Se desconheceram. Se beijaram. Se despediram. Café expresso. Ela andou pela avenida. Seguiu pela calçada até perder de vista. Ele lembrou daquela música do Lenine. Quero que tudo seja claro, lembrou da boca dela dizendo. Mas tudo está claro. Tudo é claro. Ela andou. O sol estava baixo. E frio. Passou uma semana. Passou. E um dia. Uma semana e um dia. Eram oito dias. Passaram-se mais dias. O presente ela escondeu na bolsa. Na bolsa ele não mexia. Olhou o presente. Guardou na bolsa. Ele não a desejava. Mas sentia essa vontade maluca de dar presentes pra ela.
E foi procurar o presente. Leonildo andou, andou. Para pensar. Não havia conseguido tirar a foto de Matilda no último encontro. Ainda estava na lista. E ele não sabia o que comprar. Não sabia nem o que pensar. Passou por uma vitrine. Viu uns óculos escuros esquisitos. Coloridos. De oncinha, zebra, bardot, tartaruga. Entrou. A vendedora magrinha, lápis preto no olho, conversava com um amigo magriiiinho também, calça colada, bota, lápis preto no olho, as unhas vermelhas. Olharam quando Leonildo entrou. Continuaram conversando. E ele comprou os óculos. O amigo disse. Esse tá lindo! A menina reiterou. Subiu a rua. Guardou-os no armário. Era o dia seguinte. No mesmo café.
Ela usava óculos. Nunca a tinha visto de óculos. Ficava bem. Muito bem. Ela estava lendo, era por isso. Pernas cruzadas. Leve. Suave. Incrivelmente suave. Ela sempre fora suave. Ele já sabia. Mas naquele dia estava ainda mais. Poderia levitar. E sorriu. Aquele sorriso. Sorriso-criança. Esse. Levantou-se e beijou-lhe o rosto. E um abraço sutil. Antes de sentar-se lhe entregou o presente. Ela sorriu de novo. Sorriso-menina. Ele sentou-se em frente a ela. Ela abriu o embrulho. E brilhou. Seu rosto ficou radiante. Colocou os óculos escuros. Ele pediu café. Ela terminou o chocolate. Conversaram. Confluências. Semeando. Na mão direita viu o anel. Que tu me destes. Era de prata. Quase uma aliança. Conversaram.
Sorriram. O tempo. A fotografia. Enfim. Ficou com o sorriso nos lábios. Momento decisivo. Na verdade ele tirou várias fotos. Mas apenas uma ficou. Podia ser um filme. Um filme do sorriso de Matilda. Mas apenas uma ficou. E de seus olhos iluminados. E de seu sotaque macio. Mas ficou apenas aquela foto. O tempo. A fotografia. Colocou-a em um envelope verde e levou no encontro seguinte. Desencontro. A fotografia ficou sobre a mesa. Sozinha. Sem sorrisos. O namorado. Deixou-a lá. Subiu a rua. Ela se atrasou. Matilda sentou. Pegou a foto. E sorriu. Leonildo não viu seu sorriso. Leonildo subiu a rua. Matilda pediu um chocolate quente. Era inverno. Admirou-se com aquele espelho diferente. Congelado. E sorriu. Leonildo não viu esse sorriso. Leonildo desceu a rua. Matilda tomou o chocolate quente e com a colher foi comendo o chocolate derretido das bordas da xícara. Leonildo desceu a rua. E viu. Leonildo subiu a rua. E andou. Ela estava com a foto nas mãos. Leonildo sorriu.